A
Experiência Psicodélica
Um Manual Baseado no Livro Tibetano dos
Mortos
ÍNDICE
Notas do tradutor
................................................................................................................................
3
Experiência Psicodélica
......................................................................................................................
7
I. Introdução Geral
...........................................................................................................................
8
Um Tributo a W.
Y. Evans-Wentz
.............................................................................................
11
Um Tributo a
Carl Gustav Jung
..................................................................................................
12
Um Tributo ao
Lama Anagarika Govinda
..................................................................................
17
II. O Livro Tibetano dos Mortos
Primeiro Bardo:
O Período da Ego-Perda ou do Êxtase de Não-Jogos (Chikhai Bardo)
Parte I: A Serena Luz Primária Vista no Momento da Ego-Perda
.......................................... 21
Parte II: A Serena Luz Secundária Vista Imediatamente Após a Ego-Perda
.......................... 24
Segundo Bardo: O
Período de Alucinações (Chonyid Bardo)
Introdução
................................................................................................................................
28
Explicação do Segundo Bardo
.................................................................................................
29
As Visões Pacíficas
Visão 1: A Fonte
...................................................................................................................
31
Visão 2: O Fluxo Interior de Processos Arquetípicos
..........................................................
31
Visão 3: O Fluxo Flamejante de Unidade Interior
...............................................................
34
Visão 4: A Estrutura de Vibrações Ondulares de Formas Externas
..................................... 36
Visão 5: As Ondas Vibratórias de Unidade Exterior
............................................................
39
Visão
6: "O Circo Retinal"
...................................................................................................
41
Visão 7: "O Teatro Mágico"
.................................................................................................
42
As Visões Coléricas
.................................................................................................................
43
Conclusão do Segundo Bardo
..................................................................................................
45
Terceiro Bardo:
O Período da Reentrada (Sidpa Bardo)
Introdução
................................................................................................................................
46
I. Descrição Geral do Terceiro Bardo
......................................................................................
47
II. Visões de Reentrada
............................................................................................................
49
III. A Influência Todo-Determinante do Pensamento
.............................................................
51
IV. Visões do Julgamento
........................................................................................................
52
V. Visões Sexuais
....................................................................................................................
53
VI. Métodos de Prevenção da Reentrada
.................................................................................
54
VII. Métodos de Escolha da Personalidade Pós-Sessão
..........................................................
55
Conclusão Geral
.........................................................................................................................
56
III. Alguns Comentários Técnicos
sobre Sessões Psicodélicas
1. Uso deste
Manual
...................................................................................................................
58
2. Planejando
uma Sessão
..........................................................................................................
58
3. Drogas e
Dosagens
.................................................................................................................
60
4. Preparação
..............................................................................................................................
61
5. O Cenário
................................................................................................................................
63
6. O Guia
Psicodélico
.................................................................................................................
64
7. Composição do
Grupo
............................................................................................................
66
IV. Instruções para Usar Durante
uma Sessão Psicodélica
Instruções do
Primeiro Bardo
.....................................................................................................
67
Instruções
Preliminares do Segundo Bardo
................................................................................
68
Instruções para
a Visão 1: A Fonte
.............................................................................................
68
Instruções para
os Sintomas Físicos
...........................................................................................
69
Instruções para
a Visão 2: O Fluxo Interior de Processos Arquetípicos
.................................... 69
Instruções para
a Visão 3: O Fluxo Flamejante de Unidade Interior
......................................... 69
Instruções para
a Visão 4: A estrutura de Vibração ondular de Formas Exteriores
................... 70
Instruções para
a Visão 5: As Ondas Vibratórias de Unidade Exterior
...................................... 70
Instruções para
a Visão 6: "O Circo Retinal"
.............................................................................
70
Instruções para
a Visão 7: "O Teatro Mágico"
...........................................................................
71
Instruções para
as Visões Coléricas
............................................................................................
71
Terceiro Bardo:
Instruções Preliminares
....................................................................................
71
Instruções para
as Visões de Reentrada
......................................................................................
73
Instruções para
a Influência Todo-Determinante do Pensamento
.............................................. 73
Instruções para
as Visões de Julgamento
...................................................................................
73
Instruções para
as Visões Sexuais
..............................................................................................
74
Quatro Métodos
de Prevenção da reentrada
...............................................................................
74
Primeiro Método: Meditação sobre o Buda
.............................................................................
74
Segundo Método: Meditação sobre Bons Jogos
......................................................................
74
Terceiro Método: Meditação sobre a Ilusão
............................................................................
75
Quarto Método: Meditação sobre o Vazio
..............................................................................
75
Instruções para Escolher a
Personalidade Pós-Sessão
..................................................................
75
“To see the world in a grain
of sand
And the heaven in a wild
flower.
Hold Infinity in the palm of
your hand
And Eternity in one
hour.”
“Se as portas da percepção
estivessem limpas, tudo pareceria ao homem como realmente é,
infinito.”
William
Blake
"Não existem livros sobre
êxtases e orgasmos cósmicos escritos por cientistas, somente narrativas orais e
poesia. Os livros de história são sobre eventos públicos insignificantes como
guerras, eleições e revoluções. As únicas coisas importantes acontecem nos
corpos e cérebros dos indivíduos."
Neal Cassady, expoente
beatnik.
"Uma nova civilização está
surgindo em nossas vidas, e indivíduos cegos, espalhados por toda parte, tentam
suprimi-la. Esta nova civilização traz consigo novos estilos de família; modos
diferentes de trabalhar, amar e viver; novos conflitos políticos; e por detrás
de tudo isso, estados alterados de consciência (...).
O nascimento dessa nova
civilização é o fato mais explosivo e singular de nossos
tempos.
É o evento central, a chave
para compreender os anos que estão por vir. É um acontecimento tão profundo como
a Primeira Onda de mudanças lançada há dez mil anos com a invenção da
agricultura, ou a estrondosa Segunda Onda iniciada pela revolução industrial.
Nós somos as crianças da próxima transformação, a Terceira
Onda."
Alvin Toffler
"A evolução biológica é, em
grande parte, uma história das fugas pelos corredores cegos da
superespecialização; a evolução das idéias, uma série de fugas da tirania dos
hábitos mentais e das rotinas estagnantes. Na evolução biológica, a fuga é
realizada por um refúgio do adulto num estágio juvenil como ponto de partida
para uma nova vereda; na evolução mental, por uma regressão temporária a modos
mais primitivos e desreprimidos de ideação, seguido pelo salto criativo para
adiante."
Arthur Koestler
Apresentação do tradutor
anônimo
Leitor, como eu sei que é terrivelmente maçante ler
prólogos ou “notas iniciais” ou esse tipo de coisa, vou ser o mais conciso e o
mais direto possível.
Nem me lembro mais como ou quando foi que comecei a me
interessar pela psicodelia do final dos anos 60, interesse que me levou a
conhecer o psicólogo americano Timothy Leary, conhecido como “papa do LSD” nos
anos 60. Em vez de contar a sua história aqui, eu recomendo a leitura de
“Flashbacks”, sua autobiografia. Eis alguns trechos:
"Eu
ri novamente da minha pompa diária, da arrogância tacanha dos acadêmicos, da
presunção do racionalismo, da impotência asseada das palavras em contraposição à
riqueza bruta e dinâmica dos panoramas que inundavam meu
cérebro.
(...)
Visto que as drogas psicodélicas expõe-nos a níveis
diferentes de percepção e experiência, usá-las significa entrar em uma aventura
filosófica, obrigando-nos a confrontar a natureza da realidade com os nossos
frágeis sistemas subjetivos de crenças. A diferença é a causa do riso, do
terror. Nós descobrimos abruptamente que fomos programados todos esses anos, que
tudo que aceitamos como sendo realidade é apenas uma construção
social.
(...)
Em
quatro horas (...) aprendi mais sobre a mente, o cérebro e suas estruturas do
que nos quinze anos anteriores como psicólogo
dedicado.
Aprendi que o cérebro é um biocomputador subutilizado,
que contém bilhões de neurônios não utilizados. Aprendi que a consciência normal
é uma gota um oceano de inteligência, que consciência e inteligência podem ser
sistematicamente expandidas, que o cérebro pode ser reprogramado, que o
conhecimento de como o cérebro opera é a questão científica mais urgente de
nosso tempo."
"O
medo irracional é o maior impedimento à evolução humana, seja pessoal ou como
espécie: diminui a inteligência, seu contágio é virulento e leva a uma rejeição
não apropriada ao engajamento em novas coisas das quais depende o crescimento
dos indivíduos."
A
Experiência Psicodélica é um
dos principais livros de Leary, que se dedicou à pesquisa da expansão da
consciência e à divulgação em prol da libertação das mentes desde o início dos
anos 60 até os anos 90, quando faleceu vítima de câncer. Contribuíram neste
trabalho os seus amigos e colegas de Harvard Ralph Metzner e Rick Alpert.
Leary e seus colegas foram duramente perseguidos pelas
autoridades governamentais norte-americanas, cujo primeiro passo foi tornar
ilegal o LSD, que ironicamente vinha sendo utilizado secretamente pela CIA num
projeto de controle da mente, vários anos antes do início da pesquisa
psicodélica de Timothy Leary, que passou boa parte de sua vida preso ou no
exílio, por defender a libertação do ser humano de suas prisões
psicológicas.
Uma conseqüência dessa perseguição reacionária foi que
tornou-se dificílimo obter material para estudos a partir das pesquisas de
Timothy Leary, dificuldade ainda maior se você não vive nos Estados Unidos, e se
não sabe inglês então fica mais difícil ainda. Procurando na internet por este
livro, fui encontrá-lo após muito custo num site finlandês, e escrito em inglês.
Não sei da existência de uma tradução portuguesa de The Psychedelic Experience – A Manual Based
on the Tibetan Book of the Dead. Então decidi eu mesmo traduzi-la e
distribui-la gratuitamente através da internet. Que se fodam os direitos
autorais ou da editora, pois a Experiência Psicodélica deve, segundo o próprio
Timothy Leary, “ser anunciada a todas as pessoas vivas”.
"Ligar-se, sintonizar-se,
libertar-se.
Ligar-se significa
voltar-se para dentro afim de ativar os equipamentos neurais e genéticos.
Tornar-se sensível aos muitos e diferentes níveis de consciência e aos botões
específicos que os acionam. (...)
Sintonizar-se
significa interagir harmoniosamente com o mundo exterior: exteriorizar,
materializar, expressar as novas perspectivas
internas.
Libertar-se sugere
um processo ativo, seletivo e suave de separação de compromissos involuntários
ou inconscientes. Libertar-se significa autoconfiança, descoberta da
singularidade individual, compromisso com a mobilidade, escolha e
mudança."
"Ligar-se,
sintonizar-se e libertar-se! Chegou a hora de acionar a chave interna para força
máxima! Ouçam, ou vocês vão passar o resto de suas vidas como figurantes mal
pagos em algum documentário barato, preto-e-branco e amador, ou vão se tornar os
produtores dos seus próprios filmes."
Timothy Leary
Notas sobre a tradução:
Já vou começar dizendo que nunca fiz curso de inglês nem
nada do tipo e que aprendi este idioma sozinho, com um dicionário e discos dos
Beatles, acompanhando das letras das músicas. Então, caro leitor, saiba desde já
que esta tradução “não é uma coisa que se
diga: minha nossa! Mas que bom trabalho!... Mas é melhor que
nada...”
Para ajudar no entendimento, vou esclarecer alguns
pontos que possam causar dúvidas:
-
foi utilizada
em certos trechos do livro o que se pode chamar de “linguagem psicodélica”.
Vocês vão ver que não é muito fácil de entender, mas isso acontece porque as
descrições de viagens psicodélicas são prejudicadas pelo fato de as palavras não
terem grande utilidade em níveis mais profundos de consciência. Mesmo no nível
superficial de consciência, que é o que normalmente usamos, as palavras não são
muito eficientes... Nada comparado à experiência direta.
-
A palavra “game” foi traduzida em alguns casos como
“jogo” e em outros como “script[1]”,
que me pareceu mais apropriado para facilitar a
compreensão.
-
Distinção
importante: extático (relativo a
êxtase) não é o mesmo que estático
(que se acha em repouso, sem movimento).
-
Distinção
importante: exotérico é o ensinamento que pode
ser transmitido ao público sem restrição, dado o interesse generalizado que
suscita e a forma acessível em que pode ser exposto, enquanto que esotérico é o ensinamento hermético,
obscuro, compreensível apenas por poucos, passível de ensinar-se a um círculo
mais restrito.
Ao longo do livro, adicionei algumas notas (no rodapé,
em vermelho) para explicar melhor alguns pontos e para os termos sem tradução
direta para o português.
“Meu teatrinho tem tantas
portas de palco quantas queiram, dez, cem ou mil, e atrás de cada uma
espera-lhes precisamente aquilo que andam a buscar. É uma formosa lanterna
mágica, meu caro amigo, mas de nada valerá recorrer a ela nas condições em que
se encontra. Você se veria impedido e deslumbrado por aquilo a que se acostumou
chamar de sua personalidade. Sem dúvida já terá adivinhado há algum tempo que o
domínio do tempo, a libertação da realidade e tudo aquilo que deseja chamar de
seu anseio, não significa outra coisa senão o desejo de libertar-se de sua
chamada personalidade. Tais são as prisões em que você se encontra. E se
entrasse neste teatro assim como está, assim como é, acabaria por ver tudo com
os olhos de Harry, com os velhos óculos do Lobo da Estepe. Por isso, convido-o a
despojar-se desses anteparos e deixar no vestíbulo a sua honrada personalidade,
onde estará à sua disposição a qualquer momento que assim o desejar. (...) Você
vai entrar agora, sem receio e com verdadeiro prazer em nosso mundo visionário;
conseguirá isso por meio de um suicídio aparente, de acordo com o hábito. (...)
Mas, naturalmente, seu suicídio não é definitivo, de maneira alguma; estamos num
teatro mágico, onde tudo não passa de símbolos, onde não existe nenhuma
realidade.”
trecho de “O Lobo da Estepe”
de Hermann Hesse
~ A Experiência Psicodélica
~
Um manual baseado no Livro
Tibetano dos Mortos
Por Timothy Leary, Ph.D.,
Ralph Metzner, Ph.D., & Richard Alpert, Ph.D.
Os autores estiveram engajados num programa de experiências com LSD e outras drogas psicodélicas na Universidade de Harvard, até que a propaganda nacional sensacionalista, injustamente concentrada no interesse estudantil pelas drogas, levou à suspensão das experiências. Desde então, os autores têm continuado seu trabalho sem os auspícios acadêmicos.
Esta versão do LIVRO
TIBETANO DOS MORTOS é dedicada a
ALDOUS
HUXLEY
26 de julho de 1894 – 22 de
novembro de 1963
com profunda admiração e
gratidão.
“Se você começasse do modo errado,” disse eu em resposta às perguntas do investigador, “tudo que acontecesse seria uma prova da conspiração contra você. Tudo estaria auto-validado. Você não poderia respirar sem saber que isto era parte do plano.”
“Então você acha que sabe
onde jaz a loucura?”
Minha resposta foi um
convicto e sincero “Sim.”
“E você não poderia
controlá-la?”
“Não, não poderia. Se alguém
começasse com medo e ódio como premissa maior, teria que ir até o
fim.”
“Você seria capaz,”
perguntou-me minha esposa, “de fixar sua atenção naquilo que o Livro Tibetano
dos Mortos chama de Serena Luz?”
Fiquei em
dúvida.
“Seria ela capaz de manter o
mal afastado, caso você pudesse encará-la?”, insistiu ela. “Ou será que você não
poderia fitá-la?”
Pensei algum tempo para
poder responder e, por fim, disse: “Talvez; talvez o conseguisse. Mas só se
houvesse lá alguém que pudesse esclarecer-me a respeito da Serena Luz. Não é
possível fazer-se isso a sós. Daí a razão, creio eu, para o ritual tibetano –
assentar-se alguém ao nosso lado, durante todo o tempo, para dizer o que vai
ocorrendo”.
(As Portas da Percepção,
57-58)
I.
INTRODUÇÃO
GERAL
Uma experiência psicodélica é uma jornada a novos reinos da consciência. A abrangência e o conteúdo da experiência são ilimitados, mas suas características são a transcendência de conceitos verbais, das dimensões de espaço-tempo, e do ego ou identidade. Tais experiências de consciência expandida podem ocorrer de diversas formas: privação sensorial, exercícios de ioga, meditação disciplinada, êxtases religiosos ou estéticos, ou espontaneamente. Mais recentemente elas se tornaram disponíveis para qualquer um mediante a ingestão de drogas psicodélicas como LSD, pscilocibina, mescalina, DMT, etc.
Obviamente, a droga não
produz a experiência transcendental. Ela apenas age como uma chave química – ela
abre a mente, liberta o sistema nevoso de seus padrões e estruturas ordinários.
A natureza da experiência depende quase inteiramente do arranjo e do cenário.
Arranjo refere-se à preparação do indivíduo, inclusive de sua estrutura de
personalidade e do seu humor no
momento. Cenário é o elemento físico – o clima, a atmosfera do ambiente; o
social – sentimentos das pessoas presentes; e cultural – visões predominantes
sobre aquilo que é real. É por esta razão que manuais ou guias são necessários.
Sua proposta é fazer com que a pessoa seja capaz de entender as novas realidades
da consciência expandida, servir como mapas rodoviários das novas zonas
interiores que a ciência moderna tornou acessíveis.
Diferentes exploradores
produzem mapas diferentes. Outros manuais estão para ser escritos segundo
modelos diferentes – científicos, estéticos, terapêuticos. O modelo tibetano, no
qual este manual é baseado, visa ensinar a pessoa a direcionar e controlar a
consciência de modo a alcançar o nível de entendimento diversamente chamado de
liberação, iluminação ou esclarecimento. Se o manual for lido várias vezes antes
de uma sessão, e se uma pessoa de confiança estiver lá para lembrar e refrescar
a memória do viajante durante a experiência, a consciência será libertada dos
jogos que constituem a “personalidade” e das alucinações positivas-negativas que
freqüentemente acompanham os estados de consciência expandida. O Livro Tibetano
dos Mortos é chamado em sua língua própria de Bardo Thodol, que significa
“Libertação pela Audição no Plano Pós-Morte.” O livro realça que a consciência
livre precisa apenas ouvir e lembrar-se dos ensinamentos de forma a ser
libertada.
O Livro Tibetano dos Mortos é aparentemente um livro descrevendo as experiências esperadas no momento da morte, durante um período intermediário de quarenta e nove (sete vezes sete) dias, e durante o renascimento numa outra estrutura corpórea[2]. Esta, entretanto, é apenas a armação esotérica que os budistas tibetanos usaram para encobrir seus ensinamentos místicos. A linguagem e o simbolismo dos rituais de morte do Bon, a religião tradicional do Tibete pré-budista, foram habilmente misturados com conceitos budistas. O significado esotérico, como foi interpretado neste manual, é que é a morte e o renascimento que são descritos, mas não do corpo. Lama Govinda indica isso claramente em sua introdução quando escreve: “É um livro para os vivos tanto quanto para os mortos.” O significado esotérico do livro é geralmente oculto sob várias camadas de simbolismo. Não é para o leitor médio. É para ser entendido apenas por aquele que tiver sido iniciado por um guru nas doutrinas budistas, na experiência pre-mortem-morte-renascimento. Essas doutrinas têm sido mantidas em segredo por muitos séculos. Na tradução como um texto esotérico, portanto, existem dois passos: um, a tradução do texto original para o inglês; e dois, a interpretação prática do texto para seus usos. Ao publicar esta interpretação prática para o uso em sessões de drogas psicodélicas, estamos em certo sentido rompendo com a tradição de segredo e assim contrariando os ensinamentos dos lamas.
Entretanto, este passo é
justificado, já que o manual não será entendido por alguém que não tenha tido
uma experiência de expansão da consciência e também porque há sinais de que os
próprios lamas, depois de sua recente diáspora, desejam estender seus
ensinamentos a um público mais amplo.
Seguindo o modelo tibetano,
distinguimos três fases da experiência psicodélica. O primeiro período (Chikhai
Bardo) é o da transcendência completa – além das palavras, além do espaço-tempo,
além do self. Não há visões, nem sentido do self, nem pensamentos. Há apenas
consciência pura e liberdade extasiante de quaisquer envolvimentos com jogos (e
biológicos). [“Jogos” são seqüências comportamentais definidas por papeis,
regras, rituais, objetivos, estratégias, valores, linguagem, lugares
característicos no espaço-tempo e padrões característicos de movimento. Qualquer
comportamento que não tenha estes nove fatores é um não-jogo: isto inclui
reflexos fisiológicos, ações espontâneas, e consciência transcendente.] O
segundo grande período envolve o self, ou jogo realidade exterior (Chonyid
Bardo) – numa claridade aguda ou na forma de alucinações (aparições cármicas). O
período final (Sidpa Bardo) envolve o retorno ao jogo realidade rotineiro e ao
self. Para a maioria das pessoas o segundo estágio (estético ou alucinatório) é
o mais longo. Para os iniciados, o primeiro estágio de iluminação dura mais.
Para os despreparados, os heavy game
players[3],
aqueles que se agarram angustiadamente a seus egos, e para aqueles que tomam a
droga num cenário não-apropriado, a luta para voltar à realidade começa cedo e
normalmente dura até o fim da sessão.
Palavras são estáticas, enquanto que a experiência psicodélica é fluida e mutável. Normalmente a consciência do sujeito salta de um para outro desses três níveis com oscilações rápidas. Uma proposta deste manual é habilitar a pessoa a recuperar a transcendência do Primeiro Bardo e a evitar a permanência prolongada nos padrões alucinógenos ou de jogos ego-dominados.
As Confianças e Crenças
Básicas. Você deve estar disposto a aceitar a possibilidade de que haja uma
extensão ilimitada da consciência para a qual não temos palavras no momento; que
a consciência possa se expandir para além do seu ego, seu self, sua identidade
familiar, além das diferenças que normalmente separam as pessoas umas das outras
e do mundo em torno delas.
Você deve lembrar-se de que,
através da história humana, milhões fizeram essa viagem. Uns poucos (a quem
chamamos místicos, santos ou budas) fizeram com que essa experiência durasse e
comunicaram-na aos seus seguidores.
Você deve lembrar-se,
também, de que a experiência é segura (na pior das hipóteses, você sairá da
experiência como a mesma pessoa que entrou), e que todos os males que você teme
são produtos desnecessários de sua mente. Se você experimentar o paraíso ou o
inferno, lembre-se de que é sua mente que os está criando. Evite agarrar-se a um
ou fugir do outro. Evite impor o jogo do ego à
experiência.
Você deve tentar manter a fé
e a confiança no potencial do seu próprio cérebro e no processo vital de bilhões
de anos de idade. Com seu ego atrás de você, o cérebro pode se
complicar.
Tente lembrar-se de um amigo
de confiança ou de uma pessoa respeitada cujo nome sirva com guia e
protetor.
Confie em sua divindade,
confie em seu cérebro, confie em seus companheiros.
Em dúvida, desligue sua
mente, relaxe, vá boiando rio abaixo[4].
Depois de ler este guia, a
pessoa preparada deve ser capaz, logo no início da experiência, de se mover
diretamente ao estado de êxtase de não-jogos e à revelação profunda. Mas se você
não estiver preparado(a), ou se há jogos em volta de você a distraí-lo(a), você
se verá caindo. Se isto acontecer, as instruções na Parte IV devem ajudá-lo(a) a
recuperar e manter o estado de libertação.
“Libertação neste contexto
não implica necessariamente (especialmente no caso o indivíduo médio) a
Libertação do Nirvana, mas principalmente a libertação do ‘fluxo vital’ do ego,
de tal modo a fornecer a maior consciência possível e conseqüentemente um bom
renascimento. Mesmo para a pessoa experiente e eficiente, o [mesmo] processo
esotérico de Transferência [Leitores interessados numa discussão mais detalhada
do processo de “Transferência”, ver Ioga e Doutrinas Secretas Tibetanos, editado
por W. Y. Evans-Wentz, Oxford University Press, 1958.] pode ser, de acordo com
os lamas, assim utilizado para prevenir uma quebra do fluxo da corrente de
consciência, do momento da ego-perda ao momento do renascimento consciente (oito
horas depois). De acordo com a tradução feita pelo falecido Lama Kazi
Dawa-Samdup, de um antigo manuscrito tibetano contendo indicações práticas para
os estados de ego-perda, a
habilidade para manter um êxtase de não-jogos durante toda a experiência é
possuída apenas por pessoas treinadas em concentração mental, a tal grau de
proficiência que sejam capazes de controlar todas as funções mentais e ignorar
as distrações do mundo exterior.” (Evans-Wentz, p. 86, note
2)
Este manual é dividido em
quatro partes. A primeira parte é introdutória. A segunda é uma descrição
passo-a-passo de uma experiência psicodélica baseada diretamente no Livro
Tibetano dos Mortos. A terceira parte contém sugestões práticas de como preparar
e conduzir uma sessão psicodélica. A quarta parte contém passagens instrutivas
adaptadas do Bardo Thodol, que podem ser lidas ao viajante durante a sessão,
para facilitar o movimento da consciência.
No restante desta seção
introdutória, veremos três comentários sobre o Livro tibetano dos Mortos,
publicados na edição de Evans-Wentz. São a introdução pelo próprio Evans-Wentz,
o distinto tradutor-editor de quatro tratados sobre misticismo tibetano; o
comentário de Carl Jung, o psicanalista suíço; e pelo Lama Govinda, um iniciado
numa das principais ordens budistas do Tibete.
“O dr. Evans-Wentz, que
literalmente sentou-se aos pés de um lama tibetano por anos, de modo a adquirir
sua sabedoria (...) não apenas demonstra um profundo interesse naquelas
doutrinas esotéricas tão características do espírito do Oriente, mas igualmente
possui a rara faculdade de torná-las mais ou menos inteligíveis ao leigo.”
[Citação de uma resenha antropológica sobre a edição da Oxford University Press
do Livro Tibetano dos Mortos.]
W. Y. Evans-Wentz é um
grande estudante que dedicou os seus anos adultos à tarefa de construir uma
ponte entre o Tibete e o Ocidente: como uma molécula de RNA ativando o último
com a mensagem codificada do primeiro. Não poderíamos render maior tributo ao
trabalho deste libertador acadêmico que não fosse basear nosso manual
psicodélico em seus insights e citar diretamente seus comentários na “mensagem
deste livro.”
A mensagem é que a Arte de
Morrer é tão importante quanto a Arte de Viver (ou de Vir à Vida), de que é
complemento e resumo; que o futuro do ser é dependente, talvez inteiramente, de
uma morte altamente controlada, como a Segunda parte deste volume, sobre a Arte
de Reencarnar, salienta.
A Arte de Morrer, como
indicado pelo rito de morte associado à iniciação nos Mistérios da Antigüidade,
e citada por Apuleius, o filósofo platônico, ele mesmo um iniciado, e por muitos
outros ilustres iniciados, e como o Livro Egípcio dos Mortos sugere, parece ter
sido bem melhor conhecida pelos antigos povos que habitavam os países
mediterrâneos do que agora por seus descendentes na Europa e nas
Américas.
“Para aqueles que passaram
pela experiência secreta de morte pre-mortem, a morte é justamente uma
iniciação, conferindo, assim como faz o rito iniciatório de morte, o poder de
controlar conscientemente o processo de morte e regeneração.” (Evans-Wentz, p.
XIII-XIV)
O aluno de Oxford, como seu
grande predecessor do século XI, Marpa (“O Tradutor”), que trouxe os textos
budistas indianos ao Tibete, desse modo preservando-os da extinção, viu a
importância vital dessas doutrinas e as tornou acessíveis a muitos. O “segredo”
já não está oculto: “a arte de morrer é tão importante quanto a arte de
viver.”
A Psicologia é a tentativa
sistemática de descrever e explicar o comportamento do homem, o consciente e o
inconsciente. A abrangência do estudo é ampla – cobrindo a infinita variedade da
atividade e experiência humanas; estudando a história do indivíduo, a história
de seus ancestrais, as vicissitudes evolucionárias e os triunfos que
determinaram o estado atual da espécie. O mais difícil de tudo, a abrangência da
psicologia é complexa, ocupando-se com processos que estão sempre
mudando.
Não é de admirar que os
psicólogos, em face de tal complexidade, fogem para lado da especialização e da
tacanhez paroquial.
Uma psicologia baseia-se nos
dados disponíveis e na habilidade e disposição dos psicólogos para utilizá-los.
O behaviorismo e o experimentalismo da psicologia ocidental do século XX são tão
estreitos quanto triviais. A aplicação social e o sentido social são largamente
negligenciados. Um curioso ritualismo é promulgado por um sacerdócio que cresce
rapidamente em número e poder.
A psicologia oriental, em
contraste, nos oferece uma longa história de observação detalhada e
sistematização da extensão da consciência humana juntamente com uma vasta
literatura de métodos práticos de controle e modificação da consciência. Os
intelectuais ocidentais tendem a desprezar a psicologia oriental. As teorias da
consciência são vistas como ocultas e místicas. Os métodos de investigar a
consciência variam, como meditação, ioga, retiro monástico, e privação
sensorial, e são vistos como alheios à investigação científica. E o mais
prejudicial de tudo aos olhos do estudante europeu, é a alegada ignorância dos
psicólogos orientais em relação aos aspectos práticos, comportamentais e sociais
da vida. Tal criticismo revela os conceitos limitados e a incapacidade de lidar
com os dados históricos disponíveis num nível significativo. Os psicólogos do
oriente encontraram aplicações práticas na organização do estado, na organização
da vida diária e da família. Há uma abundância de guias: o Livro do Tao, os
Anais de Confúcio, o Gîtâ, o I-Ching, o Livro Tibetano dos Mortos, só para
mencionar os mais conhecidos.
Os psicólogos orientais
podem ser julgados em termos do uso das evidências disponíveis. Os estudantes da
China, Tibete e Índia foram tão longe quanto seus dados permitiram que fossem.
Eles careciam das descobertas da ciência moderna e assim suas metáforas pareciam
vagas e poéticas. Mesmo isto não nega o seu valor. De fato, teorias filosóficas
orientais de quatro mil anos atrás se adaptam facilmente às mais recentes
descobertas da física nuclear, bioquímica, genética e
astronomia.
Uma das maiores tarefas da
psicologia atual – oriental ou ocidental – é construir uma estrutura de
referência grande o bastante para incorporar as recentes descobertas das
ciências da energia numa descrição revisada do homem.
Julgado pelo critério do uso
dos fatos disponíveis, os maiores psicólogos do nosso século (séc. XX) foram William James e Carl Jung. [Para comparar com propriedade Jung com
Sigmund Freud precisamos olhar para os dados disponíveis que cada um usou para
seus estudos. Para Freud foram Darwin, termodinâmica clássica, o Antigo
Testamento, o Renascimento cultural, história, e o mais importante, a atmosfera
fechada e superaquecida de uma família judia. A maior amplitude das referências
materiais de Jung fazem com que suas teorias encontrem maior simpatia com os
desenvolvimentos recentes nas ciências da energia e nas ciências evolucionárias.
Ambos evitaram os caminhos estreitos do behaviorismo e do experimentalismo.
Ambos lutaram para preservar a experiência e a consciência como uma área da
pesquisa científica. Ambos se mantiveram abertos ao avanço da teoria científica
e ambos recusaram-se a desconsiderar a erudição oriental.
Jung usou como fonte de
dados a fonte mais fértil – a interior. Ele reconheceu o rico significado da
mensagem oriental; reagiu ao grande borrão, o Tao Te Ching. Escreveu prefácios
perceptivos e brilhantes para o I-Ching, para o Segredo da Flor Dourada, e lutou
com o significado do Livro Tibetano dos Mortos. “Por anos, desde que foi
publicado pela primeira vez, o Bardo Thodol tem sido meu companheiro constante,
e dele tirei não apenas muitas idéias estimulantes e descobertas, mas também
muitos insights fundamentais... Sua filosofia contém a quintessência do
criticismo psicológico budista; e, como tal, pode-se verdadeiramente dizer que é
de uma superioridade sem par.”
O Bardo Thodol está no mais
alto grau, psicológico, em sua perspectiva; mas, como ocorre conosco, sua
filosofia e teologia estão ainda na era medieval, estado pré-psicológico onde
apenas afirmações são ouvidas, explicadas, defendidas, criticadas e disputadas,
enquanto a autoridade que as produz, por consenso geral, fica de fora do âmbito
da discussão.
Afirmações metafísicas,
entretanto, são afirmações da psique, e são portanto psicológicas. Para a mente
ocidental, que compensa seu bem conhecido ressentimento por uma consideração
servil com explicações “racionais”, esta verdade óbvia parece totalmente óbvia,
ou então parece-se como uma negação inadmissível da “verdade” metafísica. Quando
o ocidental ouve a palavra “psicológico”, ela sempre soa a seus ouvidos como
“somente psicológico”.
Jung baseia-se em concepções
orientais de consciência para alargar o conceito de
“projeção”:
Não apenas as “coléricas”
mas também as deidades “pacíficas” são concebidas como projeções da psique
humana, uma idéia que parece demasiado óbvia ao esclarecido europeu, porque faz
com que se lembre de suas próprias simplificações banais. Mas embora o europeu
possa facilmente explicar essas divindades como sendo projeções, ele seria
absolutamente incapaz de defini-las como reais ao mesmo tempo. O Bardo Thodol
consegue fazer isso, porque, devido às suas mais essenciais premissas
metafísicas, ele tem o europeu esclarecido e o ignorante, ambos, em desvantagem.
A idéia sempre presente, a presunção calada do Bardo Thodol, é o caráter
anti-nominal de toda afirmação metafísica, e também a idéia da diferença
qualitativa dos vários níveis de consciência e das realidades metafísicas
condicionadas por elas. O pano de fundo deste livro incomum não é o europeu “um
ou outro-ou”, mas uma afirmação magnífica, “ambos-e”. Esta afirmação pode
parecer censurável ao filósofo ocidental, pois o ocidente adora a clareza e não
a ambigüidade; conseqüentemente, um filósofo se agarra à situação “Deus é”,
enquanto outro se agarra tão ardentemente quanto o primeiro à negação, “Deus não
é”.
Jung vê claramente o poder e
a amplitude do modelo Tibetano mas ocasionalmente ele falha em apreender os seu
significado e aplicação. Jung, também, estava limitado (como todos nós estamos)
aos moldes sociais de sua tribo. Ele foi um psicanalista, o pai de uma escola.
Psicoterapia e diagnose psiquiátrica foram as duas aplicações que lhe vieram
naturalmente.
Jung perde o conceito
central do livro tibetano. Este não é (como o Lama Govinda nos lembra) um livro
dos mortos. É um livro do morrer; o que quer dizer que é um livro dos vivos; é
um livro sobre a vida e sobre como viver. O conceito de morte física real foi
uma fachada esotérica adotada para se adaptar aos preconceitos dos bonistas
tradicionais no Tibete. Longe de ser um guia para embalsamadores, o manual é um
relato detalhado sobre como perder o ego, como introduzir a personalidade em
novos reinos de consciência; e como evitar os processos limitantes involuntários
do ego; como fazer com que a experiência de expansão da consciência permaneça na
vida diária subseqüente.
Jung luta com este ponto.
Ele chega perto mas nunca o resolve. Ele não tinha nada em sua armação
conceitual que pudesse fazer sentido numa experiência de
ego-perda.
“O Livro Tibetano dos
Mortos, ou o Bardo Thodol, é um livro de instruções para os mortos e moribundos.
Como o Livro Egípcio dos Mortos é tido como um guia para o homem morto durante o
seu período de existência do Bardo (...)”
Nesta citação Jung concorda
com o esotérico e perde o esotérico. Numa citação posterior ele parece chegar
mais perto:
“ (...) a instrução dada no
Bardo Thodol serve para lembrar ao morto a experiência de sua iniciação e os
ensinamentos se seu guru, pois a instrução é, no fundo, nada menos que uma
iniciação do morto na vida do Bardo, da mesma forma como a iniciação do vivo foi
uma preparação para o Além. Tal foi o caso, pelo menos, com todos os cultos nas
antigas civilizações do tempo dos mistérios egípcios e eleusianos. Na iniciação
do vivo, entretanto, este ‘Além’ não é um mundo além da morte, mas uma inversão
dos propósitos da mente e da perspectiva, um ‘Além’ psicológico ou, em termos
cristãos, uma ‘redenção’ das mazelas do mundo e dos pecados. Redenção é uma
separação e entrega de uma condição anterior de escuridão e inconsciência, e
leva a uma condição de iluminação e liberação, à vitoria e transcendência de
tudo o que é ‘dado’.”
Da mesma forma o Bardo
Thodol é, como sente o Dr. Evans-Wentz, um processo de iniciação cuja proposta é
restaurar à alma a divindade perdida com o nascimento.
Ainda em outra passagem Jung
continua a luta mas perde outra vez:
“Nem é o uso psicológico que
fazemos dele (o Livro Tibetano) outra coisa senão uma intenção secundária,
embora ela esteja possivelmente sancionada pela tradição lamaísta. A proposta
real deste livro singular é a tentativa, que deve parecer muito estranha ao
educado europeu do século XX, de esclarecer os mortos acerca de sua jornada
através das regiões do Bardo. A Igreja Católica é o único lugar no mundo dos
homens brancos onde as provisões são feitas para as almas dos que se
foram.”
No resumo dos comentários do
Lama Govinda que se segue veremos que o comentador tibetano, livre dos conceitos
europeus de Jung, vai diretamente ao significado prático e esotérico do livro
tibetano.
Em sua autobiografia
(escrita em 1960) Jung se compromete totalmente com a visão interior e com a
sabedoria e a realidade superior das percepções interiores. Em 1938 (quando seu
comentário do Livro Tibetano foi escrito) ele estava indo nesta direção, mas
cuidadosamente e com a reserva ambivalente do psiquiatra em relação ao
místico.
“O morto precisa
desesperadamente resistir aos ditames da razão, como a entendemos, e desistir da
supremacia do egotismo, considerado sacrossanto pela razão. O que isto significa
na prática é a completa capitulação aos poderes objetivos da psique, com todas
as suas implicações; um tipo de morte simbólica, correspondente do Julgamento
dos Mortos no Sidpa Bardo. Isto significa o fim de todo consciente, do racional,
da conduta de vida moralmente responsável, e uma rendição voluntária àquilo que
o Bardo Thodol chama de ‘ilusão cármica’. A ilusão cármica surge da crença num
mundo visionário de uma natureza extremamente irracional, que não concorda com
nosso julgamento racional nem deriva dele, mas é produto exclusivo da imaginação
desinibida. É puro sonho ou ‘fantasia’, e toda pessoa prudente vai
instantaneamente nos prevenir contra ela; nem por isso alguém conseguiria ver à
primeira vista a diferença entre fantasias deste tipo e a fantasmagoria de uma
lunático. Muito freqüentemente um pequeno abaissement du niveau mental é
necessário para desencadear esse mundo de ilusão. O terror e a escuridão deste
momento têm seu equivalente nas experiências descritas nas seções introdutórias
do Sidpa Bardo. Mas o conteúdo deste Bardo também revela os arquétipos, as
imagens cármicas que aparecem primeiro em sua forma terrificante. O estado
Chonyid é equivalente à psicose deliberadamente induzida
(...)
A transição, então, do
estado Sidpa para o Chonyid é uma reversão perigosa dos alvos e propósitos da
mente consciente. É uma sacrifício da estabilidade do ego e uma rendição à
extrema incerteza do que deve parecer um tumulto caótico de formas
fantasmagóricas. Quando Freud cunhou a frase de que o ego era ‘a verdadeira casa
da ansiedade’, ele estava dando voz a uma intuição profunda e verdadeira. O medo
do auto-sacrifício se esconde no fundo de todo ego, e este medo é freqüentemente
apenas uma demanda precariamente controlada das forças inconscientes para
estourar com toda a força. Ninguém que se esforce por si mesmo
(individualização) está dispensado desta perigosa passagem, pois que esta é
temida e pertence à inteireza do eu – o sub-humano, ou supra-humano, mundo de
‘dominadores’ psíquicos dos quais o ego originalmente se emancipou com enorme
esforço, e só parcialmente então, por causa de uma liberdade mais ou menos
ilusória. Essa libertação é certamente um empreendimento muito necessário e
heróico, mas não representa nada definitivo: é meramente a criação de um
indivíduo, que, a fim de encontrar realização, tem ainda que ser confrontado com
um objeto. Este, à primeira vista, pareceria ser o mundo, que é composto com
projeções para aquele propósito. Aqui procuramos e encontramos nossas
dificuldades, aqui procuramos e encontramos nosso inimigo, aqui procuramos e
encontramos o que é querido e precioso para nós; e é confortante saber que todo
o mal e todo o bem deve ser encontrado ali, no objeto visível, onde pode ser
conquistado, punido, destruído ou aproveitado. Mas a própria natureza não
permite que este estado paradisíaco de inocência continue para sempre. Existem,
e sempre existiram, aqueles que não podem ajudar mas vêem que o mundo e suas
experiências estão na natureza de um símbolo, e que ele reflete realmente algo
que jaz escondido no próprio sujeito, em sua realidade transubjetiva. É desta
intuição profunda, de acordo com a doutrina lamaísta, que o estado Chonyid
deriva seu verdadeiro significado, que é o porquê do Chonyid Bardo ser chamado
‘O Bardo da Experimentação da Realidade’.
A realidade experimentada no
estado Chonyid é, como a última seção do Bardo correspondente ensina, a
realidade do pensamento. As ‘formas-pensamento’ aparecem como realidades, a
fantasia toma forma real, e os sonho terrificante evocado pelo carma e
trabalhado pelos ‘dominadores’ inconscientes começa.”
Jung não teria ficado
surpreso com o antagonismo profissional e institucional à psicodelia. Ele fecha
seu comentário tibetano com um comovente aparte político:
“O Bardo Thodol começou por
ser um livro ‘fechado’, e assim tem permanecido, não importa que tipo de
comentários possam ser escritos sobre ele. Pois este é um livro que se abrirá
apenas ao entendimento espiritual e esta é uma capacidade com a qual nenhum
homem é nascido[5],
mas que só pode ser adquirida com treino e experiência especiais. É bom que tais
livros de intenções e propostas ‘inúteis’ existam. Eles se destinam àquelas
‘pessoas esquisitas’ que não se importam muito com as utilidades, objetivos e
significado da atual ‘civilização’.”
Prover o “treino especial”
para a “experiência especial” possibilitada por materiais psicodélicos é a
proposta desta versão do Livro Tibetano dos Mortos.
Na seção anterior foi dito
que a filosofia e a psicologia orientais – poéticas, indeterministas
experienciais, de visão interior, vagamente evolucionárias e com o fim em aberto
– são mais facilmente adaptadas às descobertas da ciência moderna que a
silogista, segura, experimental e externalizantemente lógica psicologia
ocidental. A última imita os rituais irrelevantes das ciências energéticas mas
ignora os dados da física e da genética, os significados e
implicações.
Mesmo Carl Jung, o mais
penetrante dos psicólogos ocidentais, falhou em entender a filosofia básica do
Bardo Thodol.
Totalmente em contraste
estão os comentários do Lama Anagarika Govinda ao manual
tibetano.
Sua afirmação de abertura à
primeira vista faria um psicólogo judeu-cristão bufar de impaciência. Mas um
olhar mais atento a essas frases revela que ela são a afirmação poética da
situação genética como atualmente descrita pelos bioquímicos e pesquisadores do
DNA.
Pode ser argüido que ninguém
pode falar da morte com autoridade, se não está morto; e desde que ninguém,
aparentemente, tenha alguma vez retornado da morte, como pode alguém saber o que
a morte é, ou o que acontece depois dela?
O tibetano responderá: “Não
há uma pessoa, por isso, não há ser vivo que não tenha retornado da morte. De
fato, nós todos já morremos muitas vezes, antes desta encarnação. E o que nós
chamamos nascimento é apenas o lado inverso da morte, como um dos dois lados de
uma moeda, ou como uma porta a qual chamamos de ‘entrada’ de fora e ‘saída’ de
dentro de uma sala.”
O lama prossegue e faz um
segundo comentário poético sobre as potencialidades do sistema nervoso, a
complexidade os computador cortéxico humano.
“É muito mais assombroso que
nem todos se lembrem de suas mortes anteriores; e, por causa dessa falta de
memória, muitas pessoas não acreditam que tenha havido uma morte anterior. Mas,
igualmente, elas não se lembram de seu último nascimento – e ainda assim não
duvidam que tenham nascido. Elas se esquecem de que a memória ativa é apenas uma
pequena parte de nossa consciência normal, e que nossa memória subconsciente
registra e preserva toda impressão passada e experiência que nossa mente
desperta falha em relembrar.”
O lama então procede a fatiar o significado esotérico do Bardo Thodol – aquele significado central que Jung e por conseqüência a maior parte dos orien